segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

A Chave de uma Fronteira


Antes de iniciar este artigo, gostaria de fazer a primeira pergunta que me vem ao espírito, a mais obsedante e vertiginosa de toda pesquisa filosófica:
por que existe alguma coisa ao invés de nada?. Por que existe um Ser que nos separa do nada? Penso nessas coisa tão simples quanto respiro.

Objetos tão familiares podem conduzir-nos aos mais perturbadores enigmas. Por exemplo, uma chave de ferro, ali na maçaneta de sua porta, diante de você. Vamos imaginar a história dos átomos que a compõe. Até aonde precisaríamos retroceder?


Assim como qualquer objeto, essa chave tem uma história invisível, na qual nunca pensamos. Há uns cem anos ela estava escondida, sob a forma de minério bruto no seio de uma rocha. Antes de ser desenterrado, o bloco de ferro que deu origem à chave estava ali, prisioneiro da pedra cega, há bilhões de anos.

O metal de sua chave é mais antigo que a própria Terra, cuja idade é avaliada hoje em 4,5 bilhões de anos. Mas isso significa o fim de nossa pesquisa? Minha intuição é claríssima:
NÃO! É certamente possível retroceder ainda mais longe no passado para encontrar a origem da chave.

O ferro é o elemento mais estável do Universo. Podemos retroceder na viagem ao passado até a época em que a Terra e o Sol ainda não existiam. O metal desta chave já estava ali, flutuando no espaço interestelar, sob a forma de uma nuvem que continha quantidades de elementos pesados necessários à formação do nosso sistema solar.

Cedo aqui à curiosidade que fundamenta uma de minhas verdadeiras paixões: admitamos que, oito ou dez bilhões de anos antes de estar em minhas mãos, esta chave existisse sob a forma de átomos de ferro perdidos e dispersos numa nuvem de matéria nascente. De onde vinha então essa nuvem?


A resposta é bem simples: de uma estrela. Um sol que existia antes do nosso e que explodiu, há dez ou doze bilhões de anos. Nessa época, o Universo era essencialmente constituído de imensas nuvens de hidrogênio que se condensaram, se reaqueceram e acabaram por acender-se, formando as primeiras estrelas gigantes. Estas podem ser comparadas a gigantescos fornos destinados a fabricar os núcleos de elementos pesados necessários à ascensão da matéria em direção à complexidade. No fim de uma vida relativamente breve – apenas algumas dezenas de milhões de anos – ,essas estrelas gigantes explodem, projetando no espaço interestelar os materiais que servirão para fabricar outras estrelas menores, chamadas estrelas de segunda geração, assim como os planetas e os metais que eles contêm. Sua chave, assim como tudo o que se encontra em nosso planeta, é apenas o “resíduo” gerado pela explosão dessa antiga estrela.

Perceba: uma chave tão simples nos projeta no fogo das primeiras estrelas. Esse pequeno pedaço de metal contém toda história do universo, uma história que iniciou-se há bilhões de anos, antes da formação do sistema solar. Estranhos clarões me correm agora sobre esse pedaço ínfimo de metal, cuja existência depende de uma longa cadeia de causas e efeitos, que se estendem por uma duração impensável, do infinitamente pequeno ao infinitamente grande, do átomo às estrelas.

O serralheiro que fabricou esta chave não sabia que a matéria que martelava nasceu no turbilhão ardente de uma nuvem de hidrogênio primordial.

Mas minha sede de conhecimento me projeta para mais longe, de retroceder a um passado ainda mais remoto, bem anterior à formação das primeiras estrelas: pode-se ainda dizer algo sobre os átomos que formarão sua chave?

Desta vez, precisaremos retroceder, tanto quanto possível, até a origem do próprio Universo. Estamos num passado de quinze bilhões de anos. O que aconteceu nessa época? A física moderna diz que o universo nasceu de uma gigantesca explosão que provocou a expansão da matéria, expansão essa observável ainda nos dias de hoje. As galáxias, essas nuvens de estrelas, ainda afastam-se umas das outras sob o impulso dessa explosão original.

Tudo o que conhecemos como matéria, nasce do nada absoluto. Assim como o espaço e tempo observáveis, dados que são meras ilusões, assim como a realidade. Cairemos a partir daqui, em três novas discussões metafísicas, que entrarão profundamente no âmago da filosofia e da física moderna: a primeira discussão é acerca do surgimento, expansão e tamanho do universo. A segunda sobre a duração do “
tempo, e a terceira o que chamaremos de vácuo quântico, esta última com uma discussão bem mais profunda e intensa. Tenho esses pensamentos moldados em minha mente, mas para não me prolongar muito com os textos, optei por separá-los, mas a seqüência de pensamento é a mesma.

Felipe de Moraes
15 e 16 de Fevereiro de 2009

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Bach e a Criação do Universo


Hoje vim para o trabalho ouvindo a magnífica Cantata BWV207a de Bach (a qual ainda pretendo postar aqui no blog), e, como sempre, me vieram infinitos pensamentos filosóficos à mente. Um deles é:
Se quiser contemplar todo o mistério das criações de Deus, contemple a música de Bach. Bach é um entre os mais dignos representantes de Deus que já passou pela face da Terra.

Bach não somente compõe música, mas também lapida estrelas e organiza constelações que brilharão para todo o sempre.

A música de Bach é transcendental. Explica toda a existência do Universo, sua criação, sua força expansiva, a força que o move. O equilíbrio das notas, sonoridades, intensidades e expressividade e comparável com a simetria que o Universo tinha em seu princípio. Sua vibração é a mesma vibração de uma nova vida no ventre materno. A essência de toda criação, da criação da música como expressão, da criação de uma força trascendental presente entre nós. A música de Bach nos faz entrar em contato direto com essa força, sem escalas ou interferências, sem precedentes em qualquer outra situação.


Johann Sebastian Bach

Bach eleva nossos olhos à Deus, e a Glorificação à esse que sua música passa, é de total concordância e merecimento. É capaz de fazer o mais cético ateu a aceitar essa força geradora como único caminho para tudo.


O segundo pensamento, que percebo a cada dia mais, é que a
música é minha forma de salvação, o caminho para a salvação de minha alma.

São duas forças intrínsecas: minha vida, e as melodias que me transportam para junto de Deus. Ninguém conhece a força e os mistérios de Deus tão bem como aqueles que penetram na música e em seus mistérios, que transformam sons em melodias, moldando áureas de sonoridades e vibração. Só conhecemos os mistérios de Deus os vivenciando. A música permite isso. Reflexão, compenetração, estudo de si mesmo e de sua própria alma, e de como esse poder oculto e ao mesmo tempo escancaradamente presente, nos leva a crer em uma força estupendamente maior e em caminhos traçados e guiados por essa força.

Num estranho momento, tive a luz que precisava. Achava que a música era ligada a Deus. Errei completamente. A música é o próprio Deus. E Deus é a música dispersa no ar, o silêncio em movimento. Assim como o Universo, das galáxias e estrelas ao ínfimo núcleo de um elétron. Assim como o homem. Não somos imagens e semelhança de Deus. Somos a própria expressão Dele.


Felipe de Moraes
03 de fevereiro de 2009

domingo, 1 de fevereiro de 2009

J. S. Bach - Cantata BWV 35


Como minha primeira portagem no segmento música, escolhi esta maravilhosa e encantadora obra de Johann Sebastian Bach. Trata-se de uma cantata para o Décimo Segundo Domingo pós Trindade, na liturgia luterana. Como sou extremamente sistemático e detalhista, faço a postagem da gravação, do libreto e das partituras (uma como foi originalmente escrita, e outra com redução para piano e voz). O download é disponível pelo Rapidshare.

"A voz do Espírito Santo? De acordo com a tradicional teologia Alemã, a qual Bach conhecia em profundidade, o registro de voz Alto é o que melhor representa o Espírito Santo. Esta cantata solo não contradiz a regra, embora não saibamos com exatidão para qual registro vocal Bach a escreveu: não é nem uma mulher nem um castrato, então só pode ser para um falsetto ou um garoto extremamente treinado. Este trabalho demanda uma enorma virtuosidade vocal. Sua extraordinária variedade vocal é como consolatórios e sublimes abraços de ninar, traços fiéis de um eco de um concerto para órgão (BWV 170), e todas as qualidades dramáticas de um oratório."
(Harmonia Mundi)

J.S. Bach - Cantates pour alto

O registro que publico aqui faz parte de um álbum da gravadora Harmonia Mundi, com interpretação a cargo do Collegium Vocale, de Philippe Herreweghe. Desta vez, ele tem a presença ilustríssima de Andreas Scholl, o maior contra-tenor da atualidade. E é exatamente uma cantata para esse raríssimo registro vocal. Alguns regentes, entre eles Helmuth Rilling e Tom Koopman deixaram a interpretação destas cantatas à cargo de uma contralto, enqüanto outros, como é o caso de Harnoncourt e de Herreweghe, se utilizam desse registro masculino.

A voz de Andreas Scholl é de uma beleza única e raríssima, diria até um dom e tom divinos. Creio ser uma excelente postagem como minha primeira publicação na área musical.

Andreas Scholl

As interpretações de Herreweghe são sempre claras e com uma leitura extremamente límpida. Tudo é muito equilibrado e muito bem ouvido. Em minha opinião, é o melhor intérprete das obras orquestrais de Bach, tanto em quesitos de seleção de instrumentistas quanto em técnicas interpretativas, que abrangem dinâmica muito bem trabalhada, sonoridades extremamente equilibradas e seleção de instrumentos e organização sonora que são fidelíssimas ao que se ouvia no Barroco.

Abaixo, segue o libreto original em alemão, e seguinte a esta, a tradução poética que fiz para o português. O interessante é, certamente, tentar compreender no idioma em que foi composta. Dado que o idioma germânico possui uma filosofia diferente do idioma português, assim como cada idioma possui sua individualidade poética e filosófica.

Trata-se de uma cantata dividida em duas partes. A primeira parte, abre com uma sinfonia com órgão obligato solista. É um arranjo do primeito movimento do concerto para órgão BWV 170, e que posteriormente Bach fará outro arranjo para o seu Concerto para Oboe em Re menor BWV 1059. Segue-se uma ária, onde o solista canta que sua alma e espíritos estão perdidamente absortos pelas maravilhas de Deus. Após, um recitativo, que exprime a sublimação do solista em ver todas as maravilhas e milagres de Deus. A segunda ária canta leve e docemente o bem que Deus faz, e que ele sempre nos dá consolo quando somos assolados. A ária é sublime, uma de minhas preferidas. Tem uma simplicidade e ao mesmo tempo uma complexidade raras. O solista pode brincar com as notas e a interpretação quase que livremente.
A segunda parte inicia-se também com uma sinfonia. O terceiro movimento do mesmo concerto para órgão, e de seu mesmo concerto para oboé. Segue-se um recitativo onde o solista canta à Deus por seu toque divino em sua vida, seguido da ária que igualmente canta o desejo de tão breve se encontrar com seu Criador.

Sem mais melongas... Deleitem-se, e tenham ótimas degustações dessa jóia rara da música, em termos composicionais e interpretativos.

Abaixo segue o link para download dos arquivos. Como ainda utilizo o Rapidshare gratuitamente,
o Pacote está disponível para 10 downloads. Se por ventura esses downloads se esgotarem, me enviem um comentário com e-mail de contato para o post que subo os arquivos novamente.

Download AQUI - J.S. Bach, Cantata BWV 35

Johann Sebastian Bach
Cantata BWV 35
"Geist und Seele wird verwirret"

Primeira Parte
1. Concerto
2. Aria; Geist und Seele wird verwirret
3. Rec; Ich wundre mich
4. Aria; Gott hat alles wohlgemacht!
Segunda Parte
5. Sinfonia
6. Rec; Ach, starker Gott, lass mich
7. Aria; Ich wünsche nur bei Gott zu leben

Collegium Vocale
Direção, Phillipe Herreweghe
Alto, Andreas Scholl



Deutsche

Erstes Teil

1. Sinfonia
Oboe I/II, Taille, Violino I/II, Viola, Organo obligato, Continuo

2. Aria [Alto]
Oboe I/II, Taille, Violino I/II, Viola, Organo obligato, Continuo

Geist und Seele wird verwirret,
Wenn sie dich, mein Gott, betracht.
Denn die Wunder, so sie kennet
Und das Volk mit Jauchzen nennet,
Hat sie taub und stumm gemacht.

3. Recitative [Alto]
Continuo

Ich wundre mich;
Denn alles, was man sieht,
Muss uns Verwundrung geben.
Betracht ich dich,
Du teurer Gottessohn,
So flieht
Vernunft und auch Verstand davon.
Du machst es eben,
Dass sonst ein Wunderwerk vor dir was Schlechtes ist.
Du bist
Dem Namen, Tun und Amte nach erst wunderreich,
Dir ist kein Wunderding auf dieser Erde gleich.
Den Tauben gibst du das Gehör,
Den Stummen ihre Sprache wieder,
Ja, was noch mehr,
Du öffnest auf ein Wort die blinden Augenlider.
Dies, dies sind Wunderwerke,
Und ihre Stärke
Ist auch der Engel Chor nicht mächtig auszusprechen.

4. Aria [Alto]
Organo obligato, Continuo

Gott hat alles wohlgemacht.
Seine Liebe, seine Treu
Wird uns alle Tage neu.
Wenn uns Angst und Kummer drücket,
Hat er reichen Trost geschicket,
Weil er täglich für uns wacht.
Gott hat alles wohlgemacht.


Zweites Teil

5. Sinfonia
Oboe I/II, Taille, Violino I/II, Viola, Organo obligato, Continuo

6. Recitative [Alto]
Continuo

Ach, starker Gott, lass mich
Doch dieses stets bedenken,
So kann ich dich
Vergnügt in meine Seele senken.
Laß mir dein süßes Hephata
Das ganz verstockte Herz erweichen;
Ach! lege nur den Gnadenfinger in die Ohren,
Sonst bin ich gleich verloren.
Rühr auch das Zungenband
Mit deiner starken Hand,
Damit ich diese Wunderzeichen
In heilger Andacht preise
Und mich als Erb und Kind erweise.

7. Aria [Alto]
Oboe I/II, Taille, Violino I/II, Viola, Organo obligato, Continuo

Ich wünsche nur bei Gott zu leben,
Ach! wäre doch die Zeit schon da,
Ein fröhliches Halleluja
Mit allen Engeln anzuheben.
Mein liebster Jesu, löse doch
Das jammerreiche Schmerzensjoch
Und lass mich bald in deinen Händen
Mein martervolles Leben enden.

--

Português

Primeira Parte

1. Sinfonia
Oboe I/II, Taille, Violino I/II, Viola, Organo obligato, Continuo

2. Aria [Alto]
Oboe I/II, Taille, Violino I/II, Viola, Organo obligato, Continuo

Alma e espírito são jogados em confusão,
quando eles Te consideram, meu Deus.
Para os milagre que ambos são cientes
adicionam à conversa dos povos os brados de alegria
e fazem-se surdos e mudos para o mundo.

3. Recitative [Alto]
Continuo

Eu estou maravilhado,
por todas as coisas que vemos e que
devem nos causar admiração.
Se eu Considerar-Te,
Tu, amado filho de Deus
Então razão e entendimento alçarão vôo em mim,
Tu assim o causas
que o que, visto outrora como um milagre, é algo insignificante perante Tu.
Tú és em nome, em ações e trabalho proeminentemente maravilhoso,
Nenhuma maravilha nesta Terra é como Tu.
Ao surdo, Tu dás a audição,
Ao mudo Tu devolves o discurso,
Sim, certamente além disso,
Com uma palavra Tu abres as pálpebras dos cegos.
Estes sim, estes são Teus milagres
e o Teu poder
que nem mesmo o coro dos anjos pode suficientemente expressar.

4. Aria [Alto]
Organo obligato, Continuo

Deus tem feito tudo perfeitamente bem,
Seu amor, Sua fidelidade
são renovados a cada dia por nós.
Quando ansiedade e carência nos pressionam,
Ele nos envia rica consolação,
para que Ele dos altos nos assista dia após dia.
Deus tem feito tudo perfeitamente bem.


Segunda Parte

5. Sinfonia
Oboe I/II, Taille, Violino I/II, Viola, Organo obligato, Continuo

6. Recitative [Alto]
Continuo

Ah, poderoso Deus, permita-me
pensar em Ti continuamente
então poderei
em contentamento Tê-lo profundamente em minha alma
Permita que seu doce Hephata
amacie todo o meu tão duro coração;
Ah! Somente ponha Teu dedo de graça em meus ouvidos,
ou tão logo estarei perdido.
Toques igualmente minha língua
Com Tua onipotente mão,
então que eu possa engrandecer os sinais de maravilha
em religiosa devoção
E mostre-me que sou Teu herdeiro e filho.

7. Aria [Alto]
Oboe I/II, Taille, Violino I/II, Viola, Organo obligato, Continuo

Eu desejo viver somente com Deus,
Ah! como eu desejo que este tempo tão logo chegue,
para proclamar um aleluia jubiloso
com todos os anjos.
meu caríssimo Jesus, mantenha-me afastado das
garras do sofrimento, cheios de lamentação
e logo conceda que em Tuas mãos
minha vida preenchida de tormentos possa encerrar.


Felipe de Moraes
01 de fevereiro de 2009

sábado, 31 de janeiro de 2009

Final de tarde, final da semana. Chuva.


Uma nova visão de vida? Um olhar através de um espelho? A realidade não existe, é algo que temos a ilusão de estar ali, assim como o tempo e o espaço. Toda a criação resume-se à associação de uma energia muito forte com moléculas, elétrons e quarks associados, formando assim a matéria. O que há exatamente no núcleo de um elétron? Vácuo. E o que é o vácuo?! Nada. Ou seja, no seio de toda matéria, há exatamente NADA! Loucura? Pode parecer, mas é o que a Física moderna estuda, e uma linha de filosofia que proponho começarmos uma discussão exatamente agora: Ciência pura e exata, Deus, e Filosofia Plena. Um caminho para a salvação? Talvez. Mas o caminho para preenchermos quase todas as lacunas que nos assolam. Abro qui a pergunta primordial: Por que existe alguma coisa ao invés de nada?


A vida se decorre, mas para que lado? Em que sentido? Para onde vai todo o conhecimento que adquirimos no decorrer do tempo que temos?


Em que sentido, sabemos que uma árvore é uma árvore? Por que nos ensinaram isso. As moléculas não poderiam estar organizadas de outra maneira, a ponto de ser outra coisa, por exemplo uma pedra? E o que diferencia uma pedra de uma árvore? A formação molecular é praticamente a mesma, mas a organização muda. O que ou Quem estabelece essa organização para algo ser uma coisa, e não outra?



E porque o mundo o é tal como o conhecemos, e não de outra maneira? Poderia a Terra ter evoluído de outra maneira? Poderia o mundo caminhar por vários universos paralelos? Por exemplo, um gato numa caixa, fechada ermeticamente. Dispomos também dentro um vidro fechado de cianeto, sobre o qual pende um martelo, o qual pende por uma única molécula de material radioativo, que a qualquer momento pode desintegrar-se. Quando a molécula desintegra-se, o martelo cai, quebrando o vidro contendo cianeto e despejando o conteúdo no interior da caixa, matando assim o gato. Naturalmente, não sabemos quando essa molécula radioativa poderá desintegrar-se, consecutivamente não sabemos quando o martelo cairá, liberando o cianeto, e matando o gato. Do lado de fora da caixa, não sabemos o que acontece lá dentro. São dois universos distintos: o gato pode estar vivo, e o gato pode estar morto. Nosso conhecimento gira em torno dessas duas possibilidades, mas não sabemos o que acontece. Há essa possilidade de divisão? Creio que não, das duas possibilidades, uma: gato vivo ou gato morto. Porém não dois universos paralelos. Esse "poderia estar", refere-se ao "como estaria". Como o tempo e o espaço são somente uma aparência, não poderiam dividir-se em universos de aparências distintas. Isso mudaria certamente a organização do Universo tal como o conhecemos


O que há no outro lado de um reflexo, na água por exemplo? Um outro universo completo ou apenas o reflexo distorcido do que já conhecemos? Como tempo, espaço e realidade são meras sensações, creio que a resposta não seja difícil.


Felipe de Moraes
31 de janeiro de 2009
Registros fotográficos realizados em 30 de janeiro de 2009

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Grafite: Pensa-se, logo, existe-se

Para iniciar o final de semana com uma reflexão mais profunda, estou postando um grafite que tem próximo à Estação Vila Madalena do metrô, na linha verde. Esse grafite fica numa grande escadaria que liga as ruas Paulistânia e Harmonia, já na esquina da Rua Harmonia. Todos os dias de segunda a sexta passo por ele, e sempre gosto de admirá-lo. Quero deirar a publicação aberta à discussões. Creio que assim seja mais conveniente, pois trocamos experiências de vida e interpretação das obras.



A primeira figura que segurou minha atenção e meu pensamento, foi de um menino de rua, negro, com uma auréola prateada, e a inscrição "Você sabe que eu existou?" Podemos apreender daí a temática em que se centraliza a obra. Será o garoto um anjo, um santo, ou o próprio Messias?! Sempre buscamos por Deus, mas nunca vimos o seu rosto. Temo estarmos buscando tesouros em lugares errados. Deus está nas entrelinhas e bem diante de nossos olhos. Ele está com a mão estendida, pedindo algo. Atenção, ou simplesmente sua indulgência!? Você sabe que Deus existe? Jesus disse certa vez: "Vós sois deuses". Somos a expressão clara de Deus, não pura e simplesmente sua imagem e semelhança, mas também sua essência mais profunda. Então, você sabe que Deus existe. Mas sabe que o menino de rua existe? Se confirmar uma sentença e não outra, estará anulando ambas.



Outra figura, que toma o centro da obra, é um garoto elegíaco, sob uma negra nuvem e céu fechado. Pele pálida, olhos extremamente profundos e tristes. Ele parece ser um garoto de uma classe social elevada, com uma boa casa, boa base monetária... mas será que, por exemplo os pais, sabem que ele existe?! Os tons de pele também entram em contraste, prolongando o senso de que esse esquecimento é bilateral.



Três figuras de um olho só, ressaltam-se maiores: "Eu não nasci pra sofrer!" Não seria o que as pessoas pensam quando tentam se colocar na mesma situação que as pessoas flageladas por algo, seja por fome ou melancolia? Elas olham, apenas com um olho, e com o mesmo olho, desviam a atenção. As bocas expressivas dizem, respectivamente: ahm, uhm e ih. Monossílabas inúteis e sem expressão alguma de ajuda.

Anjos no céu guardam, sem bocas para expressar, mas com olhos grandes que não perdem um detalhe sequer.



Já a última imagem: "Não, não vá embora..." e "Vou morrer de saudades". O Anjo guarda acima dela também.


Fotografia a Crítica: Felipe de Moraes
Registros fotográficos de 20 de Janeiro de 2009

Hoje


Hoje estou imensuravelmente feliz
Acordei com a vida brilhando esplendorosamente diante de meus olhos,
e mesmo com o céu cinza, o vejo azul.

Algo assim entre o imaginário e o real absoluto.
Entre a terra do nunca e minha vida,
entende?

Como se só me restasse esse dia de vida.

Como se o céu estivesse no lugar somente hoje,
como se o ar entrasse pela primeira vez em meus pulmões,
e me fizesse sentir o frescor da vida em toda a sua essência.

Descobri pássaros e flores a cantarem,
árvores a balançarem com o vento,
o som das águas cantando melodias.

O sorriso em rostos que amo,
em pessoas pelas quais dou, sem pensar, minha vida.
E outras pelas quais quero dar.

Descobri pessoas que amo, e porque as amo.
Porque também as amo cada vez mais,
e porque elas me fazem voar sem sair do chão.

Descori que o filho do Homem veio sim,
se tornou tudo e nada ao mesmo tempo,
nos conheceu a todos em nossas diversas faces.

E somente depois se foi.

Descobri que o sol brilha claro e quente,
com o calor sereno de uma tarde,
com raios entre as copas das árvores.

Senti o mundo parar para me deixar passar.
Senti a vida correr e parar, ao mesmo tempo.
Senti a loucura do trânsito, e a calma de flanar num jardim.

Vi meu cabelo em meu rosto,
deixei bagunçado mesmo.
Apenas coloquei os dedos entre as mechas.

Vi pinturas de Monet ganharem vida,
ouvi Vivaldi, Cher e escrevi sobre a experiência.
Vi a grandiosidade que temos ao alcance e não aproveitamos.

Uma explosão de vida,
de ser humano, em erupção,
de ter a vida em minha vida.

Vejo uma pele macia, um sorriso de criança.
Olhos que buscam os meus, palavras que buscam as minhas,
Algo assim entre o eu e o encontro.

Algo assim entre o beijo e a distância,
ou como beijos através de um smile no MSN.
Ou como a despedida sem ter encontrado.

Posso sentir algo acontecendo.
Posso sentir a vida fluir,
posso tudo.

Tenho força estrondosa, humana.
Tenho sentimentos fortes.
Amo, alegro, entristeço.

Enraiveço, colerizo, melancolizo.
Torno a amar, e peço desculpas.

Tenho muito o que fazer aqui ainda.

Tenho que pedir desculpas para pessoas que machuquei.
Que nunca quis machucar, mas aconteceu.
Tenho também que evitar disso acontecer.

Tenho que amar muito meus amigos,
porque mais do que nunca,
me dou conta que não sou nada sozinho.

Tenho que acompanhar a vida da minha família.
Porque tenho saudades dos que partiram,
e sei que terei muito mais dos que ainda partirão.

Para isso tenho vida, e sei que por isso chorarei muito.
Mas é o fundamento: início, meio e fim.
É completamente aceitável.

Para isso tenho vida, e sei que por isso rirei muito também.
Por saber que tenho essa oportunidade,
e tudo a favor dela.

Tenho que ligar para minha mãe,
dizer que a amo.
Por ela ter me dado a vida, acima de tudo.

Tenho que ligar para minha vó,
dizer que a amo.
Por ela ter feito de tudo para que eu seguisse vivo.

Falar para meu vô que tudo que sou é ele.

Poder dizer para quem já se foi
que sinto muito a falta...

Abraçar meu cachorro, ver aqueles olhos castanhos
e o nariz de trufinha. Sentir seu pêlo macio,
e sua cabeça deitada.

Tenho que beijar, abraçar e dizer que amo.
Olhando nos olhos, segurando nas mãos.
Tomar banho junto.

Bagunçar o cabelo, melar de saliva.
Deixar marca no pescoço.
Gritar, espernear e querer explodir.

Esfregar coxas depois de fazer amor,
e dormir de conchinha,
sem ter hora para acordar.

Tenho que conhecer a vastidão do mundo.
Visitar Veneza, Pequim, Atenas
e o quintal de casa.

Me dou conta da vida que corre.
E disso vou tirar proveito.
Afinal, só estou aqui por enqüanto.

Como se só agora pudesse sentir perfumes,
se só agora pudesse ouvir a música que amo.
se só agora pudesse ver o poente.

E só agora sentir a textura e calor da pele,
e o sabor de um beijo na boca.

Comer chocolate.

Assistir ao poente, apreciando as nuvens,
e ver que roxo, laranja, rosa e azul
combinam perfeitamente!

Ver o sol nascer, apreciando o ar fresco da manhã
a tocar minha pele, fazendo de cada dia
uma vida completa, com nascimento, amadurecimento e morte.

Estou vivo.

Sinto o ar fresco entrar em mim com força avassaladora,
numa explosão de vida e alegria.

Num turbilhão de sentimentos, de sensos
e vontades.

Vontade de nunca deixar a vida partir.
De nunca deixar que ela saia de meu corpo.

De nunca deixar toda essa criação
que Deus nos deu especialmente.

Cuidar não é uma opção.

Uma vontade estúpida de viver,
de amar e se dar por completo.
À vida e ao amor.

E depois de tudo...

Ah, depois é uma outra história.


Felipe de Moraes
São Paulo, 3 de dezembro de 2007
02h06

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Arte Tumular

No segmento Arte, como primeira postagem farei de um meio que sempre me fascina. A Arte Tumular ou Arte Cemiterial. Tenho inúmeros registros fotográficos que fiz no Cemitério da Consolação, mas há dois sábados, resolvi visitar o Cemitério Araçá com uma câmera. O dia estava de chuva forte e constante, as alamedas estavam alagadas, tudo excessivamente molhado, minha câmera digital se passando por aquática, minha calça ensopada, não havia levado um casaco e o tempo esfriava gradativamente. Eu estava com uma amiga, a Paula Portinari, que tinha um guarda chuva todo escuncumbelhado, mas foi o que nos cobriu no momento de necessidade. Fizemos registros fotográficos fantásticos, mas trago nesta postagem três obras que realmente chamaram minha atenção nos poucos 20 minutos (devido à chuva) que passamos no interior da necrópole.

Agora, deleitem-se!

A primeira é uma escultura em bronze fundido. Trata-se de uma imagem que passa um penar imenso. O que mais me chama atenção nela é o véu recobrindo o rosto e a cabeça, representando a tristeza que se abate. Num braço, flores grandes, e a outra mão livre. Reparem que a flor da mão direita parece estar se soltando da escultura, como se a mão realmente a tivesse soltado sobre a campa. Em todos os registros fotográficos vocês observam essa leveza da flor, como se já estivesse livre da mão da escultura e se tornasse uma coisa só. A flor é algo extremamente belo e ao mesmo tempo efêmero. A vida se solta levemente da melancolia, para se tornar livre, mesmo que necessite passar a outra forma para isso. Os braços são nus, e a roupa muito leve, que revela cada detalhe do corpo. Ao mesmo tempo em que passa uma leveza imensa, a melancolia que se ressalta a torna pesada como chumbo. Vida leve, porém com o penar da perda. Na parte traseira da escultura passa-nos uma imagem completamente santificada, assemelhando-se a mantos e véus usados na antiguidade.











A segunda é em mármore. Trata-se de um anjo. Sou muito suspeito para falar sobre a figuração dos anjos, pois os adoro. São criaturas fantásticas, sempre leves anunciadores de algo. Neste caso, ele vem anunciar que não há mais nada aqui. Que o que havia já transcendeu. Ele está pousado, de pé, levemente sobre uma nuvem, entre o céu e a terra, com uma aparente flor na mão. (atentem aos detalhes técnicos de escultura na mão). As penas, a face muito serena e leve. Como deve ser, não distinguimos o sexo, pois anjos não o têm. Os aparentes seios, são bem discretos, quase masculinos. Mas não tanto a ponto de deixarem de ser femininos. A leve coroa sobre a testa completa a harmonia que há no rosto, sereno e contemplativo. Sem dor, sem penar, sem melancolia ou tristeza. Apenas contemplando a situação, com muita espiritualidade e energia.









A terceira também é em mármore. Trata-se de uma imagem que vi de longe, e a mim pareceu estar pairando no ar, entre as copas das árvores. A princípio foi assutador, mas me acostumei. Trata-se de uma figura feminina, de idade avançada, em roupas da década de 20 ou 30. Que fica no alto (a uns 4 metros do chão), sobre um pilar em uma campa. A figura observa, apenas. Não exprime nada, não faz nada. Só fica ali, parada, com o olhar absorto, pés paralelos. Mas é exatamente isso que me chama a atenção. Esse “dolce far niente”. O que se faz diante da morte?! Não há nada para fazer! Nada, a não ser olhar e esperar. Esperar para viver, ou para morrer. Por uma absolvição? Talvez. A técnica de escultura é precisa. A face reflete todos os sinais da passagem do tempo. A posição das mãos também são serenas. Direita sobre esquerda: razão sobre emoção.







Sugiro aos curiosos por este estilo de arte ou aos que desejarem uma degustação mais apurada, visitem os cemitérios. Ainda retornarei lá para mais registros exclusivos e uma exploração mais detalhada das alamedas. Me aguardem com próximas publicações relativas ao assunto.


Felipe de Moraes
29 de janeiro d 2009