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quarta-feira, 29 de abril de 2009

Uma Obra Sublime

Resposta a amiga e artista incondicional Silvia Menezes
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Retenho um carinho profundo e especial como ser humano e artista por Silvia Menezes. Dada a importância e beleza de seu trabalho no meio artístico, não poderia deixar de relevar a devida importância ao seu texto crítico sobre o meu trabalho "O Anjo Elegíaco", não poderia deixar de postar um artigo especial em minhas publicações. Abaixo, reescrevo seu texto sublime. E abaixo, a minha resposta à ele.

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Por Silvia Menezes

"Uma obra sublime, singela, doce, totalmente romântica. Se me permite fazer uma leitura pessoal, eu diria: a dor da perda de um grande amor, não mostrar seu rosto para que não se veja o seu sofrimento, o nu ao me ver representa o desejo de se tocar de se amar. Eu olho para esse anjo e sinto uma religiosidade misturada com amor carnal, aquele que desejamos e talvez não possamos ter. O seu estado de sofrimento chega a ser belo, embora traga sofrimento me parece um sofrimento bom pelo fato de ser por amor, uma certa mistura com alegria, não, não é loucura nem incoerência. Quem nunca sofreu por amor? Quem nunca experimentou as dores da perda de um doce e verdadeiro amor? Sublime. Triste é nunca ter vivido essas emoções: dor, perda, alegria, amor, sedução, sonhar acordado e tantos outros que fazem parte do amor, isso é ter vivido, o ter se arriscado, ter ido contra todos os princípios impostos pela sociedade, um anjo que talvez tenha amado um(a) mortal, vai contra esses princípios. É necessário quebrar os tabus, libertar-se para viver o que nem imaginamos. Existe um versículo bíblico que me encanta onde Deus diz: o que não subiu ao coração do homem é o que Tenho preparado para ele. Que tal criarmos asas e alçar voos nos permitirmos mais? Amar mais sem regras, sem restrições, sem preconceitos bobos, simplesmente amar. Talvez não dure para sempre, mas pelo menos existiu, terás uma história, uma lembrança, terá experimentado as sensações que mencionei acima. Ao olhar esse anjo sinto muitas emoções que chega ser difícil descrevê-las. Desculpe caso tenha ultrapassado algum limite ou tenha saído da proposta, mas escrevi o que realmente sinto quando o vejo. Um forte abraço."
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Resposta, por Felipe de Moraes

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Querida Silvia,
Não pude deixar de me emocionar com o seu texto absolutamente romântico e aprofundado numa análise absolutamente artística. Quando concebi essa obra, estava em profundo contato com Deus e de seus mistérios expressos em música, pois a executei inteiramente sob a apreciativa audição da Missa em Si menor (BWV232), de Bach. Farei ainda uma postagem dessa magnânima obra em meu blog, relacionando-a com a postagem de “O Anjo Elegíaco”.

Outro ponto que faço questão de expor, é que me identifiquei com tudo o que escreveu. No final do ano passado, passei por todos esses sentimentos que descreveu. Em várias intensidades. Confesso que chorei ao ler seu texto, primeiro porque me identifiquei profundamente com ele pelos ocorridos recentes em minha vida, e principalmente porque contextualizei três pontos cruciais: o fato da divindade do desenho, envolto com os sentimentos que afloravam em mim, e o fato de você ter captado tudo isso. E é esse o ponto: é triste nunca poder sentir essas emoções. A vida em sua efemeridade, é tão mais bela do que se fosse eterna. Tudo isso, acontece nesse breve espaço/tempo que chamamos de vida. O que é esse espaço, vazio digamos, na amplitude do universo, que em nossa contagem de tempo tem aproximadamente 15 bilhões de anos. Ela só tem um sentido repleta dessas sensações, desses momentos que passamos, dessas tristezas e alegrias. Creio que a alegria não seria tão bela se não existisse a tristeza, e vice versa. O bom é sentir ambas sempre no decorrer da vida, assim como todos os outros sentimentos e sensações. Quebrar tabus e conceitos é essencial para a sobrevivência da vida, é libertar-se, tornar sua alma livre. Só conhecemos algo quando nos permitimos isso, ou seja, quando ousamos. No princípio do século XX, um homem quebrou todos os conceitos clássicos da Física, impostos ao longo de mais de 300 anos. Seu nome é Albert Einstein. Ele explorou todo o universo sem mesmo sair da Terra. Todos os conceitos que temos hoje de “criação”, devemos a ele. Ele desvendou muitos pontos, e nos abriu muitas portas. E nunca deixando de acreditar em Deus. Ele sabia dos limites que podemos ir, sem penetrar nos mistérios de Deus, pois nessa fronteira, tudo perde o pé, e nada mais é cognoscível à nossa inteligência ou entendimento científico.

Amar sem restrições, como você escreve. Esse amar vai muito além do entendimento humano, caindo nessa fronteira que a Física calculou tão exatamente. O que compreendemos, controlamos. O que não apreendemos, nos é mistério, e assim aproveitamos mais as sensações que nos são oferecidas. “O que não subiu ao coração do homem, é o que tenho preparado para ele”. Podemos incluir em “ao coração”, também o contexto de “ao entendimento”, pois esses limites calculáveis nos separam de todo mistério de Deus. Se quiser entender mais desses meu pensamentos, pode ler mais em meus artigos de Física Quântica, pois neles os exponho de maneira filosófica e de fácil entendimento.

E como o Grande Vinícius de Moraes escreve, “que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure.” Tudo é eterno enquanto se retém na infinidade de um momento. Esses ínfimos momento se tornam eternos. Como diz Drummond: “eterno é o recém-nascido nos braços da mãe, antes que lhe dêem um nome”. Tudo nos pode ser eterno, é só querermos. Você também expõe sentir “muitas emoções que chega ser difícil descrevê-las.” O ideal e conveniente é não descrever, apenas senti-las. Devemos de todas as maneiras lutar para nunca definir nada. Apenas sentir em nosso interior. Essa capacidade de “emocionalizar” as coisas é muito difícil, mas quando conquistada, verá que evoluirá muitíssimo tanto emocional quanto intelectualmente. Você sentiu as emoções, apenas tente defini-las como emoções, sem nomes ou definições estéticas e materiais. Isso é um dos mistérios que se escondem além dos limites calculáveis. Se, por exemplo, você conseguir sentir o silêncio entre os movimentos de uma sinfonia, ou o espaço parcialmente vazio numa obra de arte, verá que ele de fato fala tanto quanto o restante da obra. Tudo isso é importante.

E não quero que peça desculpas, você teve a atitude coerente. Ousou, foi além do que até eu mesmo esperava. Sempre soube que você é uma artista de gabarito, mas agora tenho também a certeza que se continuar com essa sua força emocional e intelectual, será mais uma estrela nesse Universo.
Muito obrigado pelo seu maravilhoso texto. Que Deus sempre conserve você esse ser humano maravilhoso, e que Ele evolua seus pensamentos, suas emoções e seu intelecto, para que você nunca encontre limites, pois um dia cada um deles será quebrado.

Felipe de Moraes
29 de abril de 2009

sexta-feira, 3 de abril de 2009

O Anjo Elegíaco

Hoje farei uma postagem puramente de arte. É um desenho que executei em pastel seco sobre off-set preta, e que assinei em 14 de julho de 2005, e intitulei de “L’Ange Élégiaque”. Optei por este nome em francês, pois justamente na época em que trabalhei nessa peça, estudava conjuntamente um Trio Élégiaque para piano, violino e violoncelo, de Rachmaninov, e que fez parte do conjunto de inspirações para esse trabalho. A inspiração veio de uma escultura que está no Cemitério da Consolação, no túmulo do jornalista Cerqueira César. Na época, havia feito várias fotografias das obras de arte neste mesmo Cemitério, e já executei outras pinturas também, posteriores à, que podem ser vistas em minha postagem da Sinfonia 4 de Gustav Mahler.

Sempre fui fascinado por anjos. E nos cemitérios sempre encontro esculturas dignas para horas de sistemática apreciação. Quase sempre os artistas são desconhecidos, mas a mensagem não. Anjos são mensageiros, sempre nos trazem algo. Esses locais são sempre associados à morbidez, morte, tristeza... Mas longe disso, vejo um local de repouso, onde Deus também se faz presente, onde quem ali está apenas espera, repousando, a ressurreição. Para eles, tudo já é vencido, inclusive a morte. Os anjos e as esculturas que ali flanam, apenas admiram, às vezes entristecidos e melancólicos, às vezes admirativos, alguns até parecendo nos dizer: “Por que está triste? Sei onde está quem você procura, e está bem.”



L'Ange Élégiaque
Pastel seco sobre off-set preta - 29,7cm x 42cm - 2006

Neste desenho, o anjo repousa nu sobre blocos vermelho-magenta, e porta 2 tecidos azuis, um escondendo o que seria seu sexo (visto que anjos não têm sexo), e outro na mão esquerda, esta semioticamente simbolizando o lado das emoções. As cores foram selecionadas por mim, pois a escultura original é em mármore branco. O vermelho-magenta que escolhi para os blocos, simboliza o lado terreno, e o azul dos tecidos o lado divino. O branco do anjo, em auto-contraste com as sombras, o faz um ser divino também, cheio de luz, resplandecente. A opção de base que fiz para o desenho (off-set preto) gerou um resultado interessante, pois destaca as cores e as sombras no anjo, que são de um preto mais intenso, nos fazendo penetrar mais na obra, repousando e aprofundando o olhar. O corpo bem delineado, ao mesmo tempo em que parece flutuar, debruça-se sobre os blocos, em profunda elegia e lamento. A mão esconde o rosto, fechando a figura em seu próprio interior. As asas relaxadas também entrelaçam-se com o corpo, que possui uma sensualidade mágica e completamente humana. A iluminação é praticamente teatral, onde me remeto às obas de Caravagio, porém com maior luminescência nas cores e menor definição de realidade. O lenço azul em sua mão possui 3 dobras, simbolizando a Santíssima Trindade. A parte de cima das asas parece que irá envolvê-lo, enquanto das de baixo o elevarem. O anjo não faz nada diante da morte, apenas lamenta e introspecta-se em sua elegia. Ele está ali, apenas. Dentro de si mesmo e de seus sentimentos. O mundo decorre-se do lado de fora, e ele se deixa ver. Ele não sairá voando a qualquer momento. Ele se permite estar ali, em todo seu pesar, e em toda sua leveza. Apenas elegíaco.

Felipe de Moraes
2 de abril de 2009

domingo, 15 de março de 2009

Mahler - Sinfonia n.º 4

Gustav Mahler
Sinfonia 4 em Sol maior


Hoje faço uma postagem um tanto diferente. A Sinfonia 4 em Sol maior, de Gustav Mahler. Mas vocês me perguntam: “o que há de diferente nisso?!”. E eu respondo: “uma pintura para cada movimento da sinfonia.” Num momento de inspiração artístico-musical, peguei fotos que eu tenho de obras de arte tumular do Cemitério da Consolação e executei pinturas singelas em guache sobre canson. O resultado é o que posto aqui hoje, juntamente com a Sinfonia, obviamente, para análise e contemplação do resultado.


A quarta sinfonia de Mahler foi composta entre 1893 e 1896, mas estreou somente em 1901. Curiosamente, a obra começou a ser escrita pelo quarto movimento, originalmente concebido como passagens na terceira sinfonia. Mahler, entretanto optou por escrever uma nova sinfonia tomando por base essa composição, acrescentando-lhe as três partes iniciais.


Sinfonia 4, Primeiro Movimento, Mahler

O primeiro movimento é absolutamente clássico na forma, com suas três seções principais (exposição, desenvolvimento e recapitulação) claramente delimitadas. Até mesmo a escolha das tonalidades em que são expostos os dois temas principais (tônica e dominante, respectivamente) é rigorosamente formal, tal como numa sinfonia de Haydn. Chama a atenção, entretanto, a figura inicial dos guizos (instrumentos tradicionalmente atrelados a cavalos), que parece convidar o ouvinte para uma longa viagem. De fato, esses mesmos guizos aparecerão novamente no quarto movimento, onde se conhecerá o destino da viagem. Uma breve prévia de temas da Sinfonia 5 em Do sustenido menor se desenha, apresentando sugestões que serão melhor trabalhadas nessa sinfonia alguns anos depois. A pintura que executei inspirada nesse movimento foi um anjo sentado sobre um globo, onde ele observa algo no céu cima dele. A exploração de algo que ainda não sabemos, de uma viagem pelo desconhecido. A trombeta em seu colo repousa, marcando que algo certamente será anunciado.


Sinfonia 4, Segundo Movimento, Mahler

Também o segundo movimento tem forma clássica – um scherzo com dois trios. A inspiração aqui é uma pintura de Arnold Böcklin, intitulada “Freund Hein spielt auf” (O amigo Hein toca). O tal amigo Hein, esclareça-se, é uma representação alegórica da morte, que traz um inocente violino no lugar da foice. Com fina ironia, Mahler aqui escreve um solo de violino em scordatura (quando as cordas do violino são afinadas de maneira especial) que soa propositadamente estridente. Nos dois trios, o tom sarcástico do scherzo cede lugar ao ländler – danças folclóricas alemãs que lembram o antigo minueto. A pintura que executei é clara: a morte e seu violino, ao invés da foice. Sua forma lânguida, seus cabelos brancos e pele claríssima a tornam uma figura incomum, mas previamente reconhecível. Diferente do conceito de morte que nos é passado no decorrer da vida. Devo ressaltar, que Mahler não somente enchergava a morte de forma pesarosa e de perda, mas também a via de forma gloriosa, à qual deveremos chegar triunfantes e merecedore de sua graça. Quem desse violino a melodia ouvir, flanará com o que se decorre após.


Sinfonia 4, Terceiro Movimento, Mahler

O terceiro movimento, lento e melancólico, tem a placidez de uma lápide. O tema principal, inicialmente apresentado pelos violoncelos, passa por diversas variações em que o ritmo vai se intensificando. Este tema é às vezes intercalado por outro em que se cria no ouvinte uma expectativa frustrada: quando se espera o clímax, sobrevém na verdade o colapso de toda música. Esta atitude é muito comum na obra de Mahler. Pouco antes do final deste movimento, entretanto, aparece um exuberante clímax verdadeiramente mahleriano, na tonalidade de mi maior, justamente aquela em que se encerrará a sinfonia. A pintura aqui nos passa algo de total perda e tristeza. Como uma lápide, a imagem esguia apenas lamenta, sem lágrimas. Parafraseando uma passagem famosa de Drummond, "A vontade de chorar é tanta, que perplexa ela se cala."


Sinfonia 4, Quarto Movimento, Mahler
Das Himmlisches Leben


O quarto movimento é o ponto focal da sinfonia. Aqui aparece a soprano solista, cantando “Das himmlische Leben” (A Vida no Paraíso) – poema popular alemão, de autoria desconhecida, parte do ciclo “Des Knaben Wunderhorn” (O Garoto e sua Trompa Mágica), utilizado por Mahler em várias composições. “Das himmlisches Leben” é o canto de uma criança que morreu e nos descreve o paraíso, com suas comidas deliciosas e abundantes, seus personagens e afazeres, sua música perfeita. As estrofes são intercaladas por breves interlúdios orquestrais, onde se sobressai o guizo do primeiro movimento. Nas duas primeiras estrofes a música vai se esvanecendo, terminando em total placidez nas notas mais graves da harpa e do contrabaixo. Na pintura desse anjo que executei, passo o ritmo da melodia serena deste quarto movimento da sinfonia. Como se quem canta é ele, ou quem nos traz a melodia no ar é ele. A mão segura algo. O que?! Uma áurea de mistério. O que nos anuncia? A letra da música nos dira, mas muito suscintamente. Uma prévia do que Mahler acredita encontraremos.

Excertos de texto do Maestro Flavio Florence, titular da Orquestra Sinfônica de Santo André de 1988 até 2008, quando faleceu. Discussão e montagem por Felipe de Moraes.


Gustav Mahler, em foto de 1909

As sinfonias de Mahler costumam ser divididas em três períodos. E cada período faz com que as obras se relacionem entre si, tornando a produção artística de Mahler um universo único e constante que merece ser compreendido em sua totalidade.

As sinfonias do Primeiro Período são conhecidas como Sinfonias Wunderhorn, e abrangem as sinfonias 2, 3 e 4. Elas têm esse nome porque têm vínculos com as canções feitas por Mahler do ciclo de poemas conhecido como
Das Knaben Wunderhorn, já mencionados acima. Pode-se dizer que elas representam a busca de Mahler por uma fé firme e ao mesmo tempo uma busca para suas respostas acerca da existência.

A Sinfonia 1 usa elementos das canções do ciclo de poemas
Lieder Eines Fahrenden Gesellen (Canções de um Viajante Errante) e Das Klagend Lied (A Canção do Lamento). É puramente instrumental e também tem certa relação com Das Knabem Wunderhorn, ainda que de maneira mais indireta.

As sinfonias do Segundo Período, a 5, a 6 e a 7, costumam ser chamadas de Sinfonias Rückert. Elas têm esse nome porque a composição delas foi influenciada pelas canções que Mahler compôs sobre os poemas de Friedrich Rückert (1788-1866). Elas são puramente instrumentais e as mais trágicas do ciclo sinfônico.

O Último Período não tem nome e abrange as últimas obras do artista: as sinfonias 8, 9 e a inacabada 10, além da sinfonia canção
Das Lied von Der Erde (A Canção da Terra). A voz humana é usada em grande arte da Sinfonia 8, e ela costuma ser chamada às vezes de Sinfonia Coral.

As sinfonias 9 e 10 são instrumentais, e o poema sinfônico
Das Lied von Der Erde é cantado, ao redor do qual existe um certo mistério. A princípio era para ser a Sinfonia 9, mas por superstição, Mahler preferiu que fosse conhecida
como um poema sinfônico.

Abaixo, faço a postagem do pacote com a Sinfonia e um pequeno libreto com a letra do quarto movimento, como de costume. Mas infelizmente não tenho a partitura da Sinfonia 4, fico devendo e quando conseguir, farei novamente a postagem.

A interpretação que ouviremos é executada por Daniel Harding ao comando da Orquestra de Câmara Mahler, tendo como soprano solista Dorothea Röschmann, no quarto movimento. Gravação realizada nos dias 27 e 28 de janeiro de 2004, no Auditório G. Agnelli, no Centro Congressi Lingotto, em Turim, Itália.

Gosto muito dessa interpretação, ela explora profundamente a dinâmica, indo do extremo pianíssimo ao extremo fortíssimo. O colorido orquestral dos instrumentos é muito bem calculado e equilibrado. Uma referência para a interpretação dessa obra. Dorothea Röschmann não menos esbanja elegância, charme e intensidade interpretativa.

Mahler regendo

Download Aqui
Gustav Mahler (1860-1911)
Sinfonia n.º 4 em Sol maior
I – Bedächtig. Nicht eilen – Recht gemächlich
II – In gemächlicher Bewegung. Ohne Hast
III – Ruhevoll
IV – Sehr behaglich

Dorothea Röschmann,
soprano
Daniel Harding,
regência
Orquestra de Câmara Mahler


Das himmlisches Leben

Wir genießen die himmlischen Freuden,
d’rum tun wir das Irdische meiden.
Kein weltlich Getümmel
hört man nicht in Himmel!
Lebt alles in sanftester Ruh!

Wir führen ein englisches Leben!
Sind dennoch ganz lustig daneben!
Wir tanze und springen,
wir hümpfen und singen!
Sankt Peter im Himmel sieht zu!

Johannes das Lämmlein auslasset,
der Metzger Herodes drauf passet!
Wir führen ein geduldig’s,
unschuldig’s, geduldig’s,
ein lieblisches Lämmlein zu Tod!

Sankt Lukas den Ochsen tät schlachten
ohn’ einig’s Bedenken und Achten;
der Wein kost’kein Heller
im himmlischen Keller;
die Englein, die backen das Brot.
Gut’ Kräuter von allerhand Arten,
die wachen im himmlischen Garten!

Gut’ Spargel, Fisolen
und was wir nur wollen!
Ganze Schüsseln voll sin duns bereit!
Gut’ Äpfel, gut’ Birn’ und gut’ Trauben,
die Gärtner, die alles erlauben!
Willst Rehbock, willst Hasen?
Auf offener Straßen
sie laufen herbei!

Sollt ein Fasttag etwa kommen,
alle Fische gleich mit Freude angeschwommen !
Dort läuft schon Sankt Peter
mit Netz und mit Köder
zum himmlischen Weiher hinein.
Sankt Martha die Köchin muss sein!

Kein Musik ist ja nicht ayf Erden,
die unsrer verglichen kann warden.
Elftausend Jungfrauen
zu tanze sich trauen!
Sankt Ursula selbst dazu lacht!

Cäcelia mit ihren Verwandten
sind treffliche Hofmusikanten!
Die englischen Stimmen
ermuntern die Sinnen,
dass alles für Freuden erwacht.


A Vida no Paraíso

Nos divertimos com os deleites do Paraíso,
então evitamos todas as coisas terrestres.
Nenhum clamor mundano
é ouvido no Paraíso
Tudo vive na mais gentil paz!

Levamos uma vida angelical!
Mas somos completamente alegres!
Dançamos e saltamos,
saltitamos e cantamos!
São Pedro no Paraíso observa!

João deixa o pequeno cordeiro livre,
o açougueiro Herodes o vigia!
Conduzimos docilmente,
inocente, docilmente,
doce pequeno cordeiro à sua morte!

São Lucas o boi abate
sem sequer um pensamento ou cuidado;
o vinho custa nem um centavo
na adega do Paraíso;
os anjos, eles que assam o pão.
Finas ervas de variados tipos,
crescem no Jardim do Paraíso!

Requintados aspargos, feijões
e qualquer coisa que queiramos!
Pratos inteiros são para nós preparados!
Boas maçãs, boas peras e boas uvas,
os jardineiros, nos permitem tê-las todas!
Quer carne de veado ou de lebre?
Nas largas alamedas
eles correm livres!

Se o dia de jejum se aproxima,
todos os peixes vêm alegremente nadando!
Correndo vem São Pedro
com sua rede e suas iscas
dentro da lagoa divina.
Santa Marta deve ser a cozinheira!

Não há música na Terra
que possa ser comparada com a nossa.
Onze mil virgens
se lançam à dança!
Santa Úrsula, entretanto, ri!

Cecília e seus parentes
são excelentes músicos de corte!
As angelicais vozes
deleitam os sentidos,
para que todos acordem para a alegria.


Felipe de Moraes
14 de março de 2009

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Grafite: Pensa-se, logo, existe-se

Para iniciar o final de semana com uma reflexão mais profunda, estou postando um grafite que tem próximo à Estação Vila Madalena do metrô, na linha verde. Esse grafite fica numa grande escadaria que liga as ruas Paulistânia e Harmonia, já na esquina da Rua Harmonia. Todos os dias de segunda a sexta passo por ele, e sempre gosto de admirá-lo. Quero deirar a publicação aberta à discussões. Creio que assim seja mais conveniente, pois trocamos experiências de vida e interpretação das obras.



A primeira figura que segurou minha atenção e meu pensamento, foi de um menino de rua, negro, com uma auréola prateada, e a inscrição "Você sabe que eu existou?" Podemos apreender daí a temática em que se centraliza a obra. Será o garoto um anjo, um santo, ou o próprio Messias?! Sempre buscamos por Deus, mas nunca vimos o seu rosto. Temo estarmos buscando tesouros em lugares errados. Deus está nas entrelinhas e bem diante de nossos olhos. Ele está com a mão estendida, pedindo algo. Atenção, ou simplesmente sua indulgência!? Você sabe que Deus existe? Jesus disse certa vez: "Vós sois deuses". Somos a expressão clara de Deus, não pura e simplesmente sua imagem e semelhança, mas também sua essência mais profunda. Então, você sabe que Deus existe. Mas sabe que o menino de rua existe? Se confirmar uma sentença e não outra, estará anulando ambas.



Outra figura, que toma o centro da obra, é um garoto elegíaco, sob uma negra nuvem e céu fechado. Pele pálida, olhos extremamente profundos e tristes. Ele parece ser um garoto de uma classe social elevada, com uma boa casa, boa base monetária... mas será que, por exemplo os pais, sabem que ele existe?! Os tons de pele também entram em contraste, prolongando o senso de que esse esquecimento é bilateral.



Três figuras de um olho só, ressaltam-se maiores: "Eu não nasci pra sofrer!" Não seria o que as pessoas pensam quando tentam se colocar na mesma situação que as pessoas flageladas por algo, seja por fome ou melancolia? Elas olham, apenas com um olho, e com o mesmo olho, desviam a atenção. As bocas expressivas dizem, respectivamente: ahm, uhm e ih. Monossílabas inúteis e sem expressão alguma de ajuda.

Anjos no céu guardam, sem bocas para expressar, mas com olhos grandes que não perdem um detalhe sequer.



Já a última imagem: "Não, não vá embora..." e "Vou morrer de saudades". O Anjo guarda acima dela também.


Fotografia a Crítica: Felipe de Moraes
Registros fotográficos de 20 de Janeiro de 2009

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Arte Tumular

No segmento Arte, como primeira postagem farei de um meio que sempre me fascina. A Arte Tumular ou Arte Cemiterial. Tenho inúmeros registros fotográficos que fiz no Cemitério da Consolação, mas há dois sábados, resolvi visitar o Cemitério Araçá com uma câmera. O dia estava de chuva forte e constante, as alamedas estavam alagadas, tudo excessivamente molhado, minha câmera digital se passando por aquática, minha calça ensopada, não havia levado um casaco e o tempo esfriava gradativamente. Eu estava com uma amiga, a Paula Portinari, que tinha um guarda chuva todo escuncumbelhado, mas foi o que nos cobriu no momento de necessidade. Fizemos registros fotográficos fantásticos, mas trago nesta postagem três obras que realmente chamaram minha atenção nos poucos 20 minutos (devido à chuva) que passamos no interior da necrópole.

Agora, deleitem-se!

A primeira é uma escultura em bronze fundido. Trata-se de uma imagem que passa um penar imenso. O que mais me chama atenção nela é o véu recobrindo o rosto e a cabeça, representando a tristeza que se abate. Num braço, flores grandes, e a outra mão livre. Reparem que a flor da mão direita parece estar se soltando da escultura, como se a mão realmente a tivesse soltado sobre a campa. Em todos os registros fotográficos vocês observam essa leveza da flor, como se já estivesse livre da mão da escultura e se tornasse uma coisa só. A flor é algo extremamente belo e ao mesmo tempo efêmero. A vida se solta levemente da melancolia, para se tornar livre, mesmo que necessite passar a outra forma para isso. Os braços são nus, e a roupa muito leve, que revela cada detalhe do corpo. Ao mesmo tempo em que passa uma leveza imensa, a melancolia que se ressalta a torna pesada como chumbo. Vida leve, porém com o penar da perda. Na parte traseira da escultura passa-nos uma imagem completamente santificada, assemelhando-se a mantos e véus usados na antiguidade.











A segunda é em mármore. Trata-se de um anjo. Sou muito suspeito para falar sobre a figuração dos anjos, pois os adoro. São criaturas fantásticas, sempre leves anunciadores de algo. Neste caso, ele vem anunciar que não há mais nada aqui. Que o que havia já transcendeu. Ele está pousado, de pé, levemente sobre uma nuvem, entre o céu e a terra, com uma aparente flor na mão. (atentem aos detalhes técnicos de escultura na mão). As penas, a face muito serena e leve. Como deve ser, não distinguimos o sexo, pois anjos não o têm. Os aparentes seios, são bem discretos, quase masculinos. Mas não tanto a ponto de deixarem de ser femininos. A leve coroa sobre a testa completa a harmonia que há no rosto, sereno e contemplativo. Sem dor, sem penar, sem melancolia ou tristeza. Apenas contemplando a situação, com muita espiritualidade e energia.









A terceira também é em mármore. Trata-se de uma imagem que vi de longe, e a mim pareceu estar pairando no ar, entre as copas das árvores. A princípio foi assutador, mas me acostumei. Trata-se de uma figura feminina, de idade avançada, em roupas da década de 20 ou 30. Que fica no alto (a uns 4 metros do chão), sobre um pilar em uma campa. A figura observa, apenas. Não exprime nada, não faz nada. Só fica ali, parada, com o olhar absorto, pés paralelos. Mas é exatamente isso que me chama a atenção. Esse “dolce far niente”. O que se faz diante da morte?! Não há nada para fazer! Nada, a não ser olhar e esperar. Esperar para viver, ou para morrer. Por uma absolvição? Talvez. A técnica de escultura é precisa. A face reflete todos os sinais da passagem do tempo. A posição das mãos também são serenas. Direita sobre esquerda: razão sobre emoção.







Sugiro aos curiosos por este estilo de arte ou aos que desejarem uma degustação mais apurada, visitem os cemitérios. Ainda retornarei lá para mais registros exclusivos e uma exploração mais detalhada das alamedas. Me aguardem com próximas publicações relativas ao assunto.


Felipe de Moraes
29 de janeiro d 2009